“Pedi a Deus para me levar”: duas mulheres do Sul de SC, o câncer e a luta para continuar vivendo

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Andreza Amorim superou a fase mais difícil do tratamento e realizou o sonho de abrir uma escola. Kátia Gama ainda enfrenta a quimioterapia e conta como a doença mudou a vida que havia planejado.
 
Por Kelley Alves
 
Andreza Amorim chegou a sentir tanta dor durante o tratamento contra o câncer que pediu a Deus para morrer. Kátia Cristina Correia Gama, depois de perder 78 quilos e realizar o sonho de passar por uma cirurgia bariátrica, se preparava para aproveitar uma nova fase da vida quando recebeu o diagnóstico que mais temia. Duas mulheres do Sul de Santa Catarina, duas histórias atravessadas pelo câncer e momentos diferentes de uma luta que não termina quando a sessão de quimioterapia acaba.
 
“Teve momentos em que pedi para Deus me levar. A dor era muito grande. Eu não conseguia comer, tomar banho ou ficar muito tempo de pé”, conta Andreza, hoje empresária em Içara. Durante o tratamento, enfrentou neuropatia, anemia, alterações nas plaquetas e na imunidade, precisou receber sangue e ficou internada. Em várias ocasiões, acreditou que não conseguiria sobreviver.
 
Além da dor física, houve outra perda difícil de enfrentar: a própria imagem. Andreza lembra que ficar sem cabelo mexeu profundamente com a autoestima. Quando saía de casa usando uma touca, percebia os olhares de pena das pessoas. “Não é só um cabelo. É uma identidade, uma aparência de uma vida toda. Aquele olhar de piedade doía muito.”
 
A doença também mudou as relações. Amigos se afastaram, enquanto pessoas com quem tinha pouco contato passaram a mandar mensagens, bolos, sopas e oferecer companhia. A irmã esteve ao lado dela nas quimioterapias, na cirurgia e na radioterapia. A filha também foi fundamental.
 
Hoje, Andreza está em remissão e faz exames de acompanhamento a cada seis meses. Ela guarda a última quimioterapia como um dos momentos mais marcantes da vida, mas admite que o medo continua. Qualquer dor ou mal-estar ainda desperta o receio de que a doença volte.
 
O tratamento, porém, também fez Andreza repensar o futuro. Antes do câncer, trabalhava como professora em um lugar onde não se sentia feliz. Durante o ano em que esteve em tratamento, decidiu que precisava realizar um antigo sonho. Em 2024, abriu o Colégio Vencer, em Içara.
 
“Existe a Andreza antes do câncer e a Andreza depois. Coisas que antes eram automáticas, como tomar banho e se alimentar, hoje são gigantescas para mim”, afirma. “Existe, sim, muita vida pós-câncer.”
 
“Eu queria ser a garota verão”
 
Enquanto Andreza reconstrói a vida depois do tratamento, Kátia Cristina Correia Gama, dona de casa que mora há 25 anos em Cocal do Sul, ainda enfrenta a doença.
 
Em março de 2025, depois de perder 78 quilos com uma cirurgia bariátrica, Kátia descobriu o câncer. Estava feliz com a transformação do corpo e cheia de planos. “Eu queria ser a garota verão!”, conta, entre risos, ao lembrar daquele período.
 
O diagnóstico interrompeu os planos. “A primeira coisa que pensei foi: eu vou morrer! Depois vieram as perguntas sobre como seria minha vida dali para frente.”
 
Segundo Kátia, na primeira cirurgia foram retirados 18 microtumores da mama direita. Ela passou pelo tratamento e, quando acreditava estar livre da doença, recebeu outro diagnóstico de câncer, agora do lado esquerdo. Dessa vez, relata a retirada de 15 tumores da axila, dois da barriga e um das costas.
 
A quimioterapia trouxe enjoos, feridas na boca, diarreia e uma fraqueza que limita até as atividades mais simples. Depois das cirurgias, também precisou aprender a conviver com restrições que antes não faziam parte da rotina.
 
As consultas são outro momento difícil. “Muitas vezes saio de lá com a sensação de estar sempre com uma espada fincada sobre a minha cabeça, sem saber o que vou ouvir ou o que vai acontecer.”
 
É no marido, nos filhos, nos amigos e nas mulheres da Associação Amigas do Peito que Kátia encontra apoio. As integrantes da entidade, conta, se tornaram parte da família.
 
Kátia também faz um alerta sobre a importância de investigar alterações no corpo. Ela afirma que não sentia dor e que, inicialmente, recebeu a informação de que as calcificações observadas seriam apenas leite empedrado. Quando chegou à unidade de atendimento oncológico, segundo seu relato, a doença já estava em estágio avançado.
 
“Faça seus exames preventivos, conheça o seu corpo e, diante de qualquer dúvida, procure um médico. Não deixe para depois”, aconselha.
 
Uma realidade que atinge milhares de mulheres
 
As histórias de Andreza e Kátia fazem parte de uma realidade que continua preocupando os serviços de saúde. Segundo a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Santa Catarina deve registrar 4.460 novos casos de câncer de mama feminina em 2026. No Brasil, a previsão é de 78.610 novos casos por ano entre 2026 e 2028.
 
Durante o Outubro Rosa, Andreza fala a partir da vida que conseguiu reconstruir. Kátia fala de dentro de um tratamento que ainda exige força todos os dias. Enquanto uma sabe o que significa terminar a quimioterapia, a outra ainda precisa enfrentar cada sessão.
 
Kátia deixa uma mensagem para as mulheres que, como ela, ainda estão vivendo a parte mais difícil dessa história:
“Respeite o seu tempo. Viva um dia de cada vez. Se tiver vontade de chorar, chore. Não tenha vergonha de sentir medo ou de dizer que está cansada. Mas lembre-se sempre: amanhã é um novo dia. E talvez a sua vitória esteja no dia de amanhã”, finaliza, com esperança.
Fonte: sulinfoco

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