segunda-feira, fevereiro 18, 2019
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Sobre segundas chances

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Não existem muitas segundas chances por aí. No mundo atual, impera a necessidade do “hoje” e do “agora” característicos da geração fast-food. As pessoas não têm mais paciência, e a arte de esperar há muito parece ter sido esquecida.

Quantas vezes passamos por isso? Quando fomos deixados de lado na escolha do time da escola, quando fomos trocados por alguém mais novo, mais forte, mais rápido… ou talvez por motivos que nos são desconhecidos. O fato é que enfrentamos situações assim: toda nossa esperança parece se esvair pelos nosso dedos. Não há luz no fim do túnel e nenhuma opção parece ser viável.

O que fazer? Existe algo em que possamos depositar nosso coração?
Existe a possibilidade de recomeçar?
Dentre tantas preciosidades existentes nas Escrituras, há uma que deve sempre estar diante de nós:

“…eis que faço novas todas as coisas…” (Ap 21.5)
Isso não é reconfortante? Saber que nossos fracassos não são o fatais, e que onde há ruínas uma nova vida pode brotar?

Um dos apóstolos de Jesus, Pedro, sabe muito bem o que é ter uma segunda chance. Seu temperamento impetuoso o tornou um dos principais apóstolos, fazendo parte do círculo mais íntimo de Cristo. Momentos antes de Sua prisão, Jesus revela a seus discípulos que eles iriam o abandonar e mais tarde, após a ressurreição, os encontraria. E quem toma a palavra?

Pedro, que afirma:

“mesmo que todos te abandonem, eu nunca te deixarei” (Mc 14.28)
Podemos imaginar Pedro batendo no peito afirmando estas palavras: “Jesus, eu não sei dos outros, mas pode contar comigo! Eu nunca vou te deixar…”.

Fazemos isso, não? Com mais frequência do que gostaríamos de reconhecer. Julgamos os outros a partir de um ponto de vista (nosso ou externo) e, comparando-nos com os outros, dizemos: “Eu não seria capaz de fazer isso, ou falar aquilo, ou agir assim…sou bom demais, Jesus! Eu tenho a força e a vontade para me manter firme. Nunca vou vacilar…”. Afinal de contas, sempre há alguém pior do que nós…
É. Certas coisas preferiríamos nunca ter dito…

Em seguida, com Jesus já preso, encontramos Pedro ao lado de João dentro do pátio da casa de Caifás:
“Mas, quando acenderam um fogo no meio do pátio e se sentaram ao redor dele, Pedro assentou-se com eles” (Lc 22.55)

Os acontecimentos então se desenrolam de uma forma dramática. Por três vezes as pessoas ali presentes apontam para Pedro, dizendo que ele era um dos discípulos. E em todas elas, Pedro nega a afirmação, chegando mesmo a amaldiçoar-se!

“Pedro começou a amaldiçoar-se e a jurar: Não conheço esse homem de quem falais!” (Mc 14.71)

O golpe final veio quando, após negar ser um dos discípulos pela terceira vez, seus olhos encontram os de Jesus:

“E aconteceu que o Senhor encontrou-se com Pedro e o olhou diretamente nos olhos. Então Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe havia predito: Antes que o galo cante hoje, tu me negarás três vezes. Então Pedro, retirando-se dali, chorou amargamente” (Lc 22.61-62)

O texto grego aqui usa a expressão pikros (πικρως ) que traz a ideia de uma dor aguda, dura e fatal. O que você sentiria no lugar de Pedro? Talvez você não se veja desta forma, mas quantas vezes fracassamos naquilo que garganteamos como vitória? Como Pedro, batemos no peito de dizemos:

“pode deixar comigo. Eu nunca vou fazer isso…ou voltar àquele lugar…ou falhar com você novamente…foi a última vez…” e os discursos são os mais variados, porém a tônica é a mesma. Somos confrontados com nossas próprias palavras, e a realidade às vezes é dura demais.

Tão dura que nos faz querer voltar atrás…desistir de tudo e aceitar a derrota. É interessante analisar as derrotas que sofremos. Somos derrotados pelo tempo, por pessoas, situações…mas a pior de todas é quando o inimigo somos nós. Aqui a força de muitos desaba, e com Pedro foi assim.

Lembra-se o que Pedro fazia antes de seguir a Jesus? Ela era pescador…e após todos estes acontecimento, onde o encontramos? Veja:
“Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, Natanael, os filhos de Zebedeu …e Simão Pedro disse-lhes: vou pescar. E eles o encorajaram: nós vamos contigo também, e saíram…” (Jo 21.2-3)

Pedro volta a pescar! Obviamente não há mal algum nisso, mas é interessante como Pedro age após o fracasso: volta à antiga vida! Tenha em mente que Jesus já havia ressuscitado e aparecido a eles, mas de algum modo, isso parece não motivar a Pedro a perseverar e a pregar a ressurreição do Mestre. Observe como o fracasso tem o poder de, mesmo presenciando um milagre, nos deixar abatidos e derrotados. É impressionante como ficamos insensíveis às Boas Novas quando estamos assim…
Então a intervenção divina acontece…quando algumas das mulheres que haviam se tornado discípulas de Jesus vão ao sepulcro, encontram dois anjos que, proclamando a ressurreição de Jesus, mandam um recado aos discípulos:

“Agora ide, dizei aos discípulos e a Pedro que Ele está seguindo adiante de vós para a Galiléia. Lá vós o vereis, assim como Ele predisse”. (Mc 16.7)
Viu a ênfase ali? Havia um recado especial a ele, e o milagre estava prestes a acontecer.

Deixe agora que o texto fale por si…acompanhe:
“Jesus disse-lhes, então: Rapazes, tendes alguma coisa para comer? Eles responderam-lhe: Não. Disse-lhes Ele: Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar. Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor! Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou a capa, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. Os outros discípulos vieram no barco, puxando a rede com os peixes; com efeito, não estavam longe da terra, mas apenas a uns noventa metros. Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão”. (Jo 21.5-9)

Impressionante! Os mesmos elementos encontrados na ocasião da negação de Pedro: uma fogueira, uma roda de pessoas…e Jesus! Agora Ele estava ali…e o final do diálogo com Pedro é segue-me (v.19).
Uma segunda chance.

Não é todo dia que você ganha uma segunda chance, e Pedro sabia disso. Quando soube que era Jesus, mergulhou nas águas frias do Tiberíades e não apenas nadou até a praia, mas entregou-se de tal maneira que marchou valentemente até Roma, pregando o Evangelho e morrendo crucificado de cabeça para baixo, pois não se achava digno de morrer como o Mestre.

Uma segunda chance.
Não é todo dia que você encontra alguém que lhe dê uma segunda chance. Muito menos alguém que faça isso todos os dias…
…mas em Cristo encontramos ambas as pessoas!
Solus Christus,
Daniel

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Daniel De Luca

Daniel De Luca é farmacêutico por vocação. Nas horas vagas fala sobre teologia no canal “Quinze de Teologia” (YouTube). Apaixonado por Star Wars, autor do livro “De Hoje em Diante” (disponível no site da Amazon), define a si mesmo como “simplesmente cristão”.

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