Quando os Grandes Poderes não Suprem as Grandes Responsabilidades

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Todo mundo já sonhou em ser um super-herói na infância. Seja para ajudar alguém ou simplesmente para sermos parecidos com aqueles que admiramos. O desejo do heroísmo é inerente ao “ser” quando criança. Mas existe um grande mistério a respeito desse tal heroísmo: ele dificilmente sobrevive à vida adulta.

Lembro-me quando li “Homem-Aranha: Nunca Mais!”, uma HQ que narra a vida de Peter Parker até o seu esgotamento físico e mental. Quando ganha seus poderes de aranha na adolescência, Peter se percebe como alguém capaz de fazer a diferença; seja salvando pessoas ou combatendo vilões. Mas nem mesmo os seus poderes poderiam ajudá-lo a combater a esmagadora realidade da vida adulta.

Ele não mora mais com sua Tia, os boletos chegam, o dinheiro encurta, sua namorada é frequentemente exposta ao perigo de seus rivais, não tem mais tempo para se dedicar ao estudos, seu chefe faz de tudo para incriminar a sua identidade secreta. O cansaço afeta a mente de Peter: ele já não sabe mais quem é; não sabe se ainda vale a pena ser o Homem-Aranha. Até mesmo os seus poderes são comprometidos pelo estresse.

Então, como num ato de desespero, ele decide jogar seu traje no lixo… Homem-Aranha: Nunca Mais!

Todos sentem falta do Aranha: amigos, pessoas em perigo, crianças que sonham em ser como ele; nós, os fãs. Apenas o mau sorri com sua ida. E Peter está lá: tentando levar uma “vida normal” depois de tantas frustrações.

Em “Homem-Aranha 2”, Peter se transforma no esteriótipo do nerd americano: com seus óculos de grau, cabelo “lambido” e sua camisa social para dentro da calça. Tudo parece se encaixar nessa nova fase; mas ele tem consciência do caos ao seu redor. E eu queria chamar a sua atenção para um cena desse mesmo filme.

Quando um prédio está em chamas, Peter sente que precisa fazer alguma coisa, mas ele não está mais preparado; seu corpo está cansado, seu óculos embaçado pelo calor do fogo, o traje está no lixo. E pior: uma menina está presa no último andar e ninguém conseguiu resgatá-la.

É nesse momento que Peter esquece tudo a sua volta e entra no prédio incendiado. E é isso que torna o Homem-Aranha tão humano. Não é um super-herói que está subindo aquelas escadas desmoronando; é apenas um jovem frustrado vivendo uma crise de identidade.

Mas Peter encontra aquela menina, toda amedrontada e chorosa. Ela olha para Peter não como quem quer ser salva pelo Homem-Aranha; mas como alguém que, simplesmente, deseja ser salva. E esse foi o maior erro de Peter (e nosso também): achar que somos necessários só quando estamos fortes.

Peter continuou com os mesmos fardos quando subiu no prédio; a mesma frustração de antes, o mesmo estado que estava quando jogou seu traje no lixo. Mas algo havia mudado: ele entendeu que alguns fardos valem a pena suportar.

Quando Batman aceita ser o “culpado” pela morte de Harvey Dent em “O Cavaleiro das Trevas”, surge uma pergunta: “Por que ele fez isso?”, e o Comissário Gordon responde: “Porque ele aguenta.”

Todo herói tem seu fardo; todo herói precisa ser salvo às vezes.

Talvez, a vida adulta seja tão cheia de responsabilidades que nem mesmo grandes poderes são capazes de supri-las. E quando esse momento bater em nossa porta, precisamos nos trazer à memória: alguns fardos valem a pena suportar.

Fonte: www.escritoapena.com

Matheus Simplicio
Colunista
Email: matheus_simplicio@hotmail.com

Matheus Simplício é líder do ministério F5 Laguna é um apaixonado por livros, histórias e cinema. Escreve sobre cultura pop e assuntos do cotidiano através da visão cristã. Faz parte da membresia da igreja A verdade que liberta, a qual serve e ama.

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