segunda-feira, dezembro 10, 2018
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O solitário em nós

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Martin Scorsese é um dos melhores diretores quando se fala em retratar a realidade nua e crua. Em Taxi Driver, ele personifica a solidão através de Travis Bickle, interpretado por Robert De Niro. Bickle, é um veterano de guerra que além de atormentado pelas memórias do passado, também sofre de insônia. E o casamento desses dois problemas constroem o primeiro ato do filme, que se concentra em nos apresentar um homem que enfrenta longas e frias madrugadas sozinho. E sempre, sempre existe uma madrugada longa e fria pra quem se sente só.

Scorsese não quer, apenas, retratar a solidão de um homem que se torna taxista durante a noite para fugir das madrugadas. Ele se interessa em mostrar como a solidão tem a ver com alguém que não se encaixa. Pois todo o solitário é alguém que não se encaixou. A solidão não é causada por ausência de pessoas, mas por pessoas ausentes. Saindo do campo da sétima arte, explicarei nas próximas linhas o que as escrituras falam sobre esse sentimento.

Se você tiver curiosidade em saber como era a solidão a dois mil anos atrás, pense em um leproso. Estes, eram obrigados a viver separados da sociedade. Primeiro pela questão da saúde pública (que era bem mais rigorosa que hoje). A maioria das doenças que alcançavam um alto grau de severidade e prognóstico eram diagnosticadas como lepra. Alcançando esse grau elevado, os portadores dessa doença sofriam com a desfiguração, que poderia levar a morte.

E segundo, pela religiosidade. Se existe algo que vem separando as pessoas no decorrer dos séculos é a religiosidade, e os leprosos eram os que mais sofriam com isso. Eles eram vistos como impuros. Aqueles que os pais aconselhavam os filhos a não cumprimentarem pois estariam pecando.  Ou seja, eram incapazes de frequentar cerimonias e exercer sua fé. E no evangelho de Lucas, no capítulo 5, a partir do verso 12, encontramos o exemplo perfeito de alguém que portava essa doença, não se encaixava (nem se quisesse), e que, portanto, vivia em solidão.

Não sabemos seu nome, sua idade ou parentesco. Nada além de que ele era discriminado por sofrer de lepra. O mais intrigante da história desse homem é que, ele já está sendo menosprezado por conta de sua situação, e quando ele descobre que Jesus passaria por perto de onde estava, sua decisão é justamente de ajoelhar-se, com o rosto no chão, diante dEle.

O que leva alguém a sujeitar-se a tal atitude? O que fez aquele homem, portador de tanta dor e solidão, dobrar-se com o rosto rente ao chão perante Jesus? A esperança. Jesus era a última esperança daquele homem. E percebemos isso na leitura do verso 12 quando ele diz que “se” Jesus quisesse poderia curá-lo. Ele não implora a Jesus. Não impõe um dever a Jesus. Mas ele simplesmente revela uma verdade a respeito de Cristo: se Ele quiser, Ele cura. E sabe o que Jesus responde? Eu quero! Que cena.

Talvez você, assim como eu, não tenha lepra ou alguma doença de pele grave. Mas talvez você, assim como eu, já passou por um momento de solidão. E é justamente isso que nos aproxima do leproso. Não a doença, mas a necessidade. Nós necessitamos de atenção. Mas Jesus deu mais do que isso ao nosso amigo leproso. Ele o tocou.

O toque de Cristo, no verso 14, resultou um milagre na vida daquele homem. Ele não seria mais doente, não seria mais excluído da sociedade. Toda a sua necessidade seria suprida com um gesto simples de Jesus. Dentre a multidão somente o solitário foi tocado. Talvez porque dentre a multidão ele era o único que estava com o coração disposto a sujeitar-se a vontade de Cristo com aquele “se o senhor quiser”, e não com o “cura-me” que a multidão gritava. Um toque pode significar várias coisas pra nós. Mas para Jesus significa restauração.

Num contexto onde a grande maioria das pessoas prefere relacionamentos virtuais do que pessoais, a solidão se torna algo comum. Não podemos escapar desses momentos solitários. Mas podemos escapar da permanência deles.

Imagine comigo: depois da cura da lepra, aquele homem foi até o sacerdote para mostrar que estava limpo e que poderia entrar em comunhão com todos novamente. Podemos deduzir, então, que ele não se sentiria mais só. Já que estava limpo, ninguém iria tratá-lo como estranho ou indigno. Certo? Na verdade, isso é o que nós queremos pensar. Mas o mundo não é tão justo assim.

Hoje, mais do que nunca, nós sabemos que as pessoas não precisam ter lepra para esquecerem uma das outras. Mas o homem de Lucas 4, tinha algo que nem mesmo o sacerdote que o examinou tinha. Ele teve o toque e a atenção de Jesus. Mesmo que ele ainda não conseguisse se encaixar, ele poderia lembrar do momento em que, no meio de milhares de pessoas, somente ele recebeu um presente de Jesus. Ninguém se sente só quando lembra de Jesus.

Cristo também passou por momentos de solidão. E o mais famoso deles foi o momento da cruz. Ninguém estava ali com ele. Ninguém se ofereceu (voluntariamente) para ajudar a carregar a cruz. E ele experimenta a amarga sensação da morte sozinho. E tudo isso foi feito pensando em nós. A humanidade estava afastada de Deus por conta do pecado. As pessoas se sentem sozinhas, justamente, por estarem longe do seu criador.

E Jesus se oferece como um amigo que percebe a solidão do outro. Ele sabe que as vezes nos sentimos sozinhos. Ele sabe que as vezes parece que ninguém se importa. Mas ele quer que lembremos do que foi feito por nós. Ele quer que você nunca esqueça que a cruz uniu você a Deus. E é isso que deve nos mover naquelas longas madrugadas frias: a lembrança de que Jesus se fez solidão para que nós pudéssemos experimentar a companhia de Deus. Lembre-se da Cruz, Leitor, nela Jesus morreu a sós para que pudesse viver a eternidade com você. Enquanto existir manchas de sangue na cruz, você nunca estará só.

Matheus Simplicio
Colunista
Email: matheus_simplicio@hotmail.com

Matheus Simplício é líder do ministério F5 Laguna é um apaixonado por livros, histórias e cinema. Escreve sobre cultura pop e assuntos do cotidiano através da visão cristã. Faz parte da membresia da igreja A verdade que liberta, a qual serve e ama.

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