‘O que passamos aqui é um pesadelo’, emociona-se tubaronense que mora na Itália

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Um relato real, evolutivo e angustiante do início aos dias atuais. Josela Pennino nasceu e cresceu em Tubarão. Ela conta com exclusividade tudo o que vivencia no país. “Um silêncio tão profundo, doía a alma”. “Muitos não entendem, o killer está aí, não economiza ninguém”. “As pessoas se contagiavam num piscar de olhos”. “Nada mais será igual”. “Espero o fim para vermos todos, e sem abraços, que serão transformados em lágrimas e vitória por vencermos”. “Vi um vídeo de minha cidade, muitos sem precaução. Não é crítica, mas um alerta”. Saudades…

A tubaronense Josela Pennino, 52 anos, deixou o Brasil há 24 anos, quando tinha 28. Ela nasceu, cresceu e morou na Cidade Azul por esse período – passou sua juventude em Tubarão – e foi morar na Itália, sua descendência familiar.

Hoje, reside em Nápoles, é casada e tem duas filhas. Mas, Josela nunca tinha pensado, assim como todos, que viveria algo inimaginável: ‘o terror que é o killer’, como ela denomina.

A tubaronense faz um relato evolutivo do que vivenciou em sua cidade aos dias atuais. E como mãe, somente ficou em paz quando conseguiu buscar uma de suas filhas que não estava em Nápoles. “Tenho duas filhas, uma de 21 anos, que estava na Espanha estudando, e somente voltei ao normal como mãe quando fomos buscá-la em Roma, um avião da Farnesina deu todo o apoio para isso, buscar os estudantes. Minha outra tem 17 e está na escola superior”.

O início: “Um silêncio inédito, tão profundo que chegava a doer a alma”
Ela conta que tudo teve início no fim de fevereiro quando as notícias começaram a ser divulgadas e o medo começou a se tornar algo constante para a vida de todos. “De repente, do dia para a noite tudo fechado, e nós que vivemos na cidade mais barulhenta do planeta, Nápoles, dormimos e acordamos com um silêncio inédito, tão profundo que chegava a doer a alma.

Isso por causa do surgimento das novas regras, como não poder sair de casa, somente uma pessoa da família, uma ou duas vezes por semana para ir ao supermercado ou farmácias, logicamente usando luvas e máscaras para se proteger. “Da noite para o dia escolas fechadas, e os nossos filhos? Crianças, adolescentes, jovens, com suas vidas roubadas por um killer invisível. Enquanto isso, em meados de março, os números de casos e de mortes, apesar de todas as precauções e decretos do governo, ainda cresciam”, relata Josela.

“Infelizmente tem sempre as pessoas sem consciência, o killer está aí, não abandona e não economiza ninguém”
“Viver trancado em casa vai angustiando muito, mas os jornais alertavam para os números que a cada dia subiam. Aí, a gente para e pensa. E os nossos esforços em ficar em se isolar? Infelizmente, tem sempre as pessoas sem consciência, talvez, me desculpem, por ignorância, que quebravam as regras e saíam, que não entendem que o killer está aí, não abandona e não economiza ninguém, neste momento somos todos iguais. Os dias vão passando… e pessoas morrendo…”

Em 24 de março, a morte de um casal amigo: “As pessoas se contagiavam em um piscar de olhos”
Até esta data, 24 de março, já eram 7.503 mortes por Covid-19 e mais de 57,5 mil casos do início da epidemia na Itália. Neste dia uma notícia triste para a tubaronense. “Recebi uma mensagem, uma amiga faleceu, seu marido estava intubado e também não resistiu, morreu dia 1 de abril, e o medo virou um terror que o killer possa te matar”.
“As ruas desertas, uma sensação de vazio, mas continuávamos a ter fé, que logo esse pesadelo acabaria e que voltaríamos a viver com a liberdade e alegria, mas os números de mortes subiam, as pessoas se contagiavam em um piscar de olhos, os hospitais cheios, e veio o novo decreto, tudo fechado até maio”, acrescenta.

Muitos jovens e crianças também morreram
Segundo Josela, eram muitos contágios e mortes, mas não somente os idosos, muitos jovens e crianças também morriam. “O mais dolorido é morrerem sozinhos, sem o conforto de um pai, um beijo de adeus, os enfermeiros e médicos davam a extrema unção”, emociona-se.
“A cada notícia que víamos não era para confortar, continuamos a estar no silêncio, onde o único barulho que escutávamos eram das ambulâncias e o carro de som da proteção civil que passava a todo momento pedindo para ficarmos em casa, que só o isolamento poderia nos salvar”.

18 de abril: Notícias ficaram um pouco melhores
Em 18 de abril, quase dois meses de isolamento, as notícias ficaram um pouco melhores, conforme a tubaronense. O número de contágios descia, as pessoas infectadas estavam se curando, muitos voltando para suas casas e podendo abraçar seus familiares. “Não é fácil ficar trancado, isolado dentro de casa, sem poder passear com este sol que nos beija todos dias, não é fácil não poder estar com amigos, não é fácil ficar sem comer uma boa pizza, visto que nem o tele-entrega funciona, mas na verdade a nossa vida vale muito mais que a nossa liberdade e neste momento não temos outra opção”.

“Assisti um vídeo de minha Cidade Natal e vi muitos ainda sem consciência. Falo isso não para criticar, mas para alertar”
Josela mora na Itália, mas está sempre ligada no que ocorre em Santa Catarina, em sua Cidade Natal, e em contato com familiares e amigos os quais nunca deixou de manter os laços, mesmo que longe. “Outro dia assistindo um vídeo de Tubarão, vi que as pessoas ainda não estavam se conscientizando, muitos passeando, fazendo compras e sem proteção, e fiquei pensando. Aonde está o governo que não toma providências? Falo isso não para criticar, mas para alertar, o que estamos passando aqui é um pesadelo, estamos presos sem ter cometido algum crime, tiraram a nossa liberdade de viver, o nosso trabalho, a educação de milhares de jovens.

Último registro da tubaronense: 25 de abril
“Hoje, 25 de abril, festa da liberação da Itália, um dia lindo. E só escutamos helicópteros voando. Controlando para que ninguém saía de casa. As coisas estão melhorando a cada dia que passa, mas somente em 4 de maio, vamos iniciar a fase 2, poderemos sair somente por pouco tempo para dar uma caminhada não longe de 200 metros de casa, as lojas vão abrir por algumas horas, mas com todas as precauções, muitas pessoas vão voltar ao trabalho, e vamos poder ver amigos e parentes, mas sem abraços, abraços serão transformado em lágrimas e vitória por termos vencido este momento tão difícil”.

Sua mensagem: “Espero que a humanidade possa se restaurar”
“Enfim, espero que a humanidade possa se restaurar, que tenha consciência de que depois de tudo isso que estamos vivendo, nada mais será igual, vamos ter que viver por um grande período sem convívio social. A Primavera chegou e daqui a pouco vem o Verão… O sol vai brilhar forte, eu na verdade estou fazendo a minha parte, estou em casa com minha família, espero que Deus esteja no poder e possa nos livrar o mais rápido possível desta pandemia, e nos ajude a seguir nosso caminho rumo à liberdade.

Fonte: Notisul

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