O Dia em que Descobri que Não Poderia ser Curado

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Era uma madrugada quente, um pouco mais quente do que o normal. Minha esposa, sempre atenta à nossa filho, dormia tranquila. E assim ficamos, até o grito desesperado do nosso filho.

Ele não respirava, ficara sem ar por conta do refluxo. Colocando-o de barriga para baixo, dávamos pequenas e angustiantes palmadas em suas costas. Nada parecia resolver.

Não era mais apenas a criança a chorar, nós também o fizemos. Criou-se em mim uma dor estranha, que nunca havia sentido, e que parecia querer ficar. Fomos para o hospital.

No caminho, seus pequenos olhinhos pareciam tristes, fadigados pela inocente briga pelo ar. E no mesmo caminho, a respiração parecia se normalizar. Chegamos no hospital.

A espera pelo médico não foi tão dolorosa, o pequeno parecia mais aliviado, mais tranquilo. Mas continuamos, para prevenir. Se fôssemos tão inocentes quanto ele, poderíamos dormir na espera, com lindos espasmos no sorriso, como ele fez. Uma médica nos atendeu.

Já na sala, enquanto a médica o examinava com seu estetoscópio, mais sorrisos. Mas agora pareciam propositais, eram confortáveis demais para serem apenas espasmos.

E como percebemos durante a jornada, não foi nada grave. “Apenas um susto”, disse a médica. Ele já respirava bem, sem dificuldades ou chiados. E depois de tudo, também voltamos a respirar normalmente. Mas a minha dor continuava.

Uma dor que não tem remédio ou tratamento. Uma dor que, dificilmente, sairá do peito daqueles que são pais: a dor de não conseguir resolver tudo.

A dor de não conseguir consolar. A dor de não conseguir transferir para si a dor de quem se ama.

Uma dor que dói de forma estranha, sem cicatrizes, apenas porque amas.

Dessa dor, eu não poderei ser curado.

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Matheus Simplicio

Matheus Simplício é líder do ministério F5 Laguna e um apaixonado por livros, histórias e cinema. Escreve sobre cultura pop e assuntos do cotidiano através da visão cristã. Faz parte da membresia da igreja A verdade que liberta, a qual serve e ama.

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