sexta-feira, julho 19, 2019
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O desafio de Abraão

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“Então disse o Senhor a Abrão: Saia da tua terra, do meio da casa de teu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei” Gn 12.1

É o famoso texto da chamada de Abrão, conhecido como o pai da fé. Dentre tantos motivos, gostaria de destacar um em especial, algo que antes não havia notado e que corrobora sua grande fé no Todo-Poderoso.

Antes disso, peço que leia com atenção o versículo acima. Agora, mais uma vez. Notou algo “estranho” ali? Algo diferente? Notou o contraste de informações? Se ainda não, raciocine comigo…

Ruínas de Delfos

O ser humano é curioso por natureza. Desde sua queda, o futuro certo que havia junto ao Pai foi lhe tirado, restando apenas a certeza da morte e do retorno ao pó. Assim, já há muito tempo o homem tenta, de algum modo, “prever” o seu futuro. Encontramos nas diversas civilizações do passado menções a profetas e oráculos, como o de Delfos na Grécia antiga. A pergunta ancestral sempre rondou nas mentes e corações humanos: O que me reserva o amanhã?

Mesmo no meio cristão, os “profetas” parecem gozar de certa popularidade, e quem não fica ansioso quando Deus realmente se manisfesta no meio de Seu povo (ainda que não somente por profetas)? Quem não gosta de ouvir uma palavrinha do Pai sobre seu futuro que atire a primeira pedra…

Enfim: o ponto em questão é que todos, em maior ou menor grau, pensam sobre o amanhã. Claro, existe o planejamento (orçamentário, acadêmico, profissional, familiar) sadio, onde mensuramos os alvos e os passos que daremos para chegar lá, e também sonhamos sim com o amanhã. E porque não? Isso é saúde para nossas almas! É ótimo sonhar, planejar, mas…

(esse mas sempre nos incomoda)

O fato é que não temos controle nenhum sobre o amanhã. Nenhum. Planejamos, agimos, guardamos, gastamos, investimos…e nada disso pode sequer garantir que estejamos vivos amanhã. Aliás, existem diversos textos bíblicos que tratam do assunto:

“Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará suas próprias preocupações. É suficiente o mal que cada dia traz em si mesmo” Mt 6.34

“Agora, prestai atenção, vós que aclamais: “hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá nos estabeleceremos por um ano, negociaremos e obteremos grande lucro”.Contudo, vós não tendes o poder de saber o que acontecerá no dia de amanhã. Que é a vossa vida? Sois, simplesmente, como a neblina que aparece por algum tempo e logo se dissipa” Tg 4.13-14

Interessante… mais ainda quando seguimos o texto e encontramos isso:

“Em vez disso, devíeis afirmar: se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo. Entretanto, estais agora vos orgulhando de vossas capacidades. E toda vanglória como essa é maligna” Tg 4.15-16

Impressionante! Tiago aqui diz que não devemos planejar? Não! Mas é maligno confiarmos nosso futuro apenas em nossa capacidade e nossos talentos. Capacidade aqui, no grego, é (αλαζονειας – alazoneia), com o sentido de “alguém que confia em seu próprio poder e recursos; arrogância; confiança na estabilidade das coisas terrestres”, segundo Strong’s. O quadro é claro: existe uma tensão entre a “pretensa” autonomia humana caída e a soberania de Deus. E sabemos muito bem que dá a última palavra… Portanto, qual a cura para esta vanglória maligna? Reconhecer a soberania de Deus, conhecê-lo e, pela fé, confiar nele. E isso, claro, não é assim tão fácil como parece.

Tenha em mente a natureza depravada do homem e sua luta de independência em relação à Deus. Lutamos inconscientemente contra a dependência. Queremos sempre as coisas do nosso jeito, mesmo cantando músicas que falem o contrário. Por isso, somos tão dependentes da graça de Deus que nos transforma e muda nosso coração de pedra em carne (Ez 11.19). Se fôssemos depender apenas de nossa vontade, estaríamos perdidos!

Então, qual o desafio neste ano que inicia? Aceitar o desafio de Deus a Abrão – leia novamente o texto:

“Então disse o Senhor a Abrão: Saia da tua terra, do meio da casa de teu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei” Gn 12.1

Atente às duas informações contida aqui:

1) a especificidade naquilo que Abrão deveria deixar para trás: sua terra, sua família e a casa de seu pai.

2) a generalidade para onde Abrão haveria de ir: para uma terra que te mostrarei.

Isso não nos deixa nada confortáveis, não é? Preferiríamos o contrário, tipo: “Abrão, sai do lugar onde estás e vá para Canaã, na região norte, na cidade tal, bairro tal, e procure a casa na rua Jó e vá até a casa amarela da esquina”.

Ficamos nervosos, desatentos… perdemos a fome e corremos para todos os lados. Mas isso de nada adianta. Quanto antes aceitarmos o fato de que escutamos o que precisamos, e não o que queremos mais fácil será a jornada. O ponto é a especificidade de Deus naquilo que devemos abandonar. Sejam vícios, estruturas de pensamento, hábitos, lugares, pessoas…o fato de sermos filhos de Deus, pela fé em Cristo, nos habilita em sermos agregados à família de Deus e sermos transformados à imagem do Filho(Rm 8.29). Então, meu irmão, não adianta tapar os ouvidos: todos nós ouviremos de Deus o que precisa ser deixado para trás.

Aqui entendo o título de pai da fé dado à Abrão. Ele foi o primeiro a encarar o desafio e aceitá-lo. Ainda que tenha levado Ló (quando deveria ter partido sem familiares), ele confiou que Deus era poderoso o suficiente para cumprir Sua Palavra. Deixou aquilo que lhe trazia segurança e partiu, tendo somente a garantia de que Deus estaria com ele. O resultado nós sabemos…Deus o prosperou em todas as áreas, e de sua semente veio o Messias.

E quanto a nós? Algumas lições parecem claras:

1) Planejar é sadio e correto – confiar em nossa capacidade não: é interessante isso, mas tudo que fazemos deve ser acompanhado de “se for da vontade de Deus”. Isso nos faz lembrar quem somos e quem Deus é – acabando com todo orgulho que, no fim das contas, nos abate. Lembre-se que Deus resiste aos orgulhosos…

2) A ordem é clara quanto ao que deve ser deixado para trás: eu e você sabemos muito bem o que deve ser abandonado. Sejam hábitos, vícios, lugares, pessoas…e não adianta nos enganarmos a respeito disso. O prejuízo de ignorar isso é só nosso.

3) Há um chamado de caminhar com Deus, pela fé: Deus não nos mostrará o futuro. Não adianta correr atrás de profetadas e coisas afins. Pode ser que eventualmente recebamos algum vislumbre, mas os detalhes são somente dEle. Isso é de propósito, pois saber o que irá acontecer no futuro não é viver pela fé/fidelidade. E a única estrada trilhada pelo cristão chama-se fé. Não há atalhos nem desvios. Aceitar essa realidade só nos ajudará no processo…

Bem…o fato é que nossos planos e sonhos podem se concretizar. Ou não. Tudo depende da vontade soberana de Deus – afinal de contas, em nós está Seu querer e realizar (Fp 2.13) e nenhum de Seus planos podem ser frustrados (Jó 42.2).Isso não quer dizer, claro, que todos os nossos planos vem de Deus…isso só em oração podemos discernir. Portanto, que possamos viver menos ansiosos este 2019, crendo nos planos eternos do Pai (que certamente se cumprirão), e assumindo nossa responsabilidade de obedecer à voz do Espírito e abandonar tudo aquilo que foi ordenado por Ele.

E aproveite a viagem! Contemple a vista!

Todo o trabalho é dEle!

Solideogloria

Daniel

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Daniel De Luca

Daniel De Luca é farmacêutico por vocação. Nas horas vagas fala sobre teologia no canal “Quinze de Teologia” (YouTube). Apaixonado por Star Wars, autor do livro “De Hoje em Diante” (disponível no site da Amazon), define a si mesmo como “simplesmente cristão”.

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