Ministro da Saúde pede calma à população

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Dificuldades na entrega de equipamentos nos Estados, possibilidade de uma quarentena vertical e um posicionamento sobre o discurso do presidente foram questões da coletiva.

Liliane Dias
Brasília (DF)

Vários esclarecimentos foram apresentados em coletiva na tarde desta quarta-feira (25), pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. A reunião que teve duração de quase duas horas, apresentou informações para diversos setores e segmentos, entre os assuntos da pauta, Mandetta falou sobre o discurso do presidente Jair Bolsonaro na noite de terça-feira (24), e possibilidade de uma quarentena vertical.

Estiveram presentes e apresentaram esclarecimentos sobre aquisição de insumos e dificuldades na entrega, utilização de hidróxido cloroquina, para o tratamento do coronavírus entre outras questões em pauta. Os secretários de vigilância em saúde, Wanderson Kleberson de Oliveira, de ciência, tecnologia e insumos estratégicos, Denizar Vianna, e o secretário executivo, João Gabbardo dos Reis, deram suporte ao ministro.

Primeiros 30 dias e projeção

“Nesta quinta-feira teremos 30 dias, ou seja, o primeiro mês. Fizemos um balanço e projeções do que tínhamos e as impressões que teremos em relação ao comportamento dessa virose no nosso país. Somos o primeiro de grande escala, quando se fala em país tropical, teríamos que saber como se comportaria”, detalha o ministro da Saúde.

Considerando esses fatores, um balanço será feito durante os próximos dias e também no final de semana. A intenção é projetar os 30 dias que segurão por região e por cidade. Ele acrescenta que o vírus entrou pela maior cidade (São Paulo), que teve a característica de ter um hospital de idosos, que começou muito cedo com um número de contágios ali dentro, o que pode fazer com que os números de óbitos sejam mais concentrados na unidade.

“Balanço dos 30 dias, terão números muito importantes. A faixa etária dos pacientes que adoeceu. Como foi a internação deles, quanto tempo ficaram internados, qual o índice de rotação dos leitos de UTI para os pacientes brasileiros. Por que falamos isso? Quando pegamos um paciente de mais idade, como é o perfil dos pacientes italianos, o tempo de permanência nas UTIs chegam a 22 dias em média. Os mais jovens, o tempo médio de permanência cai para oito. Então, em um leito de UTI, que um idoso fica quase 30 dias, naquele mesmo leito passam três jovens. Se sabemos bem a idade podemos preparar bem melhor o cálculo”, observa Mandetta.

Ele lembra que a maioria das pessoas ficam preocupadas apenas com respiradores, mas é preciso pensar nas pessoas que utilizam a ‘zona cinzenta’, onde ficam os pacientes que não estão bem para ficar em casa, porém não são casos para UTI. “Esse vai precisar de leito hospitalar, de fisioterapeuta, de recursos respiratórios, um tubo, ou uma máscara para respirar, mas não precisará da UTI. Esse deve ser o grande contingente que precisará em algum momento de hospitais de campanha, de algumas alternativas de internação. Mas com a redução de cirurgias eletivas, a taxa de internação reduziu de 30 a 40%, temos uma quantidade de leitos de UTI muito expressiva muito boa, se conseguirmos fazer bom uso poderemos acomodar um número enorme de pessoas. Nossa relação leito UTI/habitantes, comparada com países europeus como a Itália, a nossa relação é melhor do que muitos países, melhor que a da Alemanha que é uma das maiores relações do mundo”, tranquiliza.

Hoje no país são 2.433 casos no total e 57 óbitos. Em Santa Catarina são 109 casos, sem nenhum óbito. “Quando forem iniciados os testes rápidos, esses números confirmados, 2,433 aumentarão muito, e o número de óbitos será sempre absoluto, porque sempre serão identificados ao fazer o teste para identificar a causa morte. Então a letalidade vai ficar menor que 2,4 porque será mais um elemento para que a população entenda a dinâmica dessa virose em nossa sociedade”, pontua Wanderson.

Recursos

Mandetta explica que nesta quarta (25), foram definidos os recursos que chegaram, será repassado R$ 600 milhões para Estados e municípios de acordo com a pactuação. “Primeira leva R$ 415 para as secretarias estaduais, agora, R$ 600 milhões que cada Estado deve definir. Se vai para município mando diretamente para o fundo municipal de saúde, ou se vai para o Estado, porque temos federações que quem faz o atendimento hospitalar é o Estado, os municípios fazem a atenção primária. E temos Estados que não fazem nenhuma atenção especializada, a atenção é toda do município. Então o Estado vai fazer hoje a sua divisão de como vai fazer a locação e informa nesta quinta (26), para dentro das orientações que demos, apontarem quais os municípios terão atendimento de maior complexidade e que vão necessitar de leitos de maior complexidade para ser feito o repasse”, expõe.

“Quando fizemos a locação por valores, por exemplo, São Paulo que tem 45.752.757 pelo senso, vamos repassar R$ 130.313.000,00. Mato Grosso do Sul que tem 2.772.342, repassaremos R$ 7.896.000,00 e assim sucessivamente. Só que agora concentrado nos municípios, e isso foi fruto da discussão que tivemos com os prefeitos das capitais e das cidades de regiões metropolitanas, os recursos que forem necessários iremos repassando para esses municípios”, pontua o ministro.

Insumos

Gabbardo afirma que será apresentado um relatório consolidado de informações desde o primeiro dia. “Vamos criar uma metodologia de apresentar os EPIs. O que foi adquirido tem para adquirir e o que foi distribuído”, detalha. E explica que os equipamentos não são enviados aos hospitais, mas sim para as secretarias estaduais da saúde. “Lá é feita a distribuição o estado faz a gestão dos equipamentos”.

Questionado sobre ação de confisco de equipamento, o secretário afirma que não houve na fábrica, houve confisco de materiais que estavam tentando exportar “71 requisições de produtos sendo exportados. Em Santa Catarina cinco mil máscaras foram impedidas de serem exportadas”, assegura o secretário.

O secretário executivo explica que a primeira compra seria de 20 milhões de máscaras e conseguiram comprar 15 milhões. “Já encaminhamos para os Estados em torno de 30% deste quantitativo, todos receberam com exceção dos da região norte e nordeste. Por essa razão inicial vão para o aeroporto, para embarcar e quando estão lotados. Então foram encaminhados via rodoviária. Daqui dois ou três dias estarão recebendo. Solicitamos apoio da força aérea brasileira e está sendo discutido se irá por avião, mas será disponibilizado um avião para norte e nordeste”, observa.

Com relação ao abastecimento o que poderia ser feito ‘via avião’ é feito ‘via terrestre’. “Vamos ter que refazer o centro de logística nacional para a saúde, porque nessas malhas aéreas tem as vezes voos cancelados no dia e deverá ser revista a logística. Isso também é consequência dessa doença, desta situação, quando falamos em fragmentação, em vários setores que são afetados, os hospitais são afetados, a logística é afetada, a economia também é um dos pontos que merece atenção”, pontua.

Para o restante do país o encaminhamento é da segunda parcela. “Vamos abastecer os Estados semanalmente. Mandaremos um quantitativo bastante considerável de máscaras. Nesta quinta vamos fazer um levantamento referente aos primeiros 30 dias, vamos apresentar o que já compramos de equipamentos de proteção individual, o que já encaminhamos e o que temos em estoque e o que temos para receber, nesta quinta essas informações estarão disponíveis no relatório de 30 dias”, conta Gabbardo.

Quanto as ações em curso de pesquisa aplicada na área dos ventiladores, há pesquisas em curso, inclusive de instituições nacionais que oferecem a oportunidade de usar um mesmo ventilador e para mais de um paciente ao mesmo tempo. “Isso é uma das iniciativas que vai dar uma escala maior para assistência desses pacientes. Também nessa área de ventiladores, estamos investindo muito nas impressoras 3D que são impressoras que permitem fabricar rapidamente aqueles componentes que se desgastam rapidamente e suprir a população”, constata Viana.

Além disso, um trabalho intensivo é feito e devem começar a ser entregues em 30 dias. “Dessa fabricação excepcional, projeção de receber em 30, 60 e 90 dias. Muitos compram diretamente da China, esses vão chegar antes, acreditamos que no máximo em dez dias esses respiradores chegarão no Brasil”, afirma o ministro.

“ Foram 200 para Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A partir desta quinta-feira serão colocados nos outros Estados. Aguardamos que as secretarias dos Estados informe, onde deverão ser entregues. Estamos com os equipamentos prontos para entregar só aguardando a informação”, acrescenta.

Vacinação

Sobre vacina, o ministro explica que não foram feitos estoques. “Esse ano para anteciparmos a campanha não fizemos estoque regulador, se fosse fazer o estoque só poderia iniciar a campanha conforme estava planejada, para a segunda quinzena de abril. A intenção foi antecipar, para isso calcula-se quantos idosos e quantos trabalhadores têm de saúde por Estado, que são os dessa primeira etapa e remete para o Estado de acordo com os números informados por eles. Teve Estado que acabou a vacina com duas horas, outro que acabou com 6 horas, 10 horas, por vários motivos”, afirma.

Um deles segundo Mandetta, foi a enorme adesão. “As pessoas foram em massa fazer a vacinação. O segundo critério é que teve Estado que disse que vacinaria quem procurasse, e não fez os idosos e de saúde na integridade. Não é assim que vai funcionar, vamos recebendo e vão mandando os lotes para a frente, nessa sequência faz a distribuição, é assim que vai ocorrer. Serão no total 75 milhões de doses, para os grupos de idosos e profissionais de saúde, depois entra segurança, crianças com deficiência. Já estão todos no site, se todo mundo obedecer ao calendário vai dar certinho para quem mais precisa ser protegido que é a parcela mais significativa da população”, pontua.

Uso de hidróxido cloroquina

O tratamento com hidróxido cloroquina está com protocolo pronto. A afirmação foi do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos Denizar Vianna em coletiva no fim da tarde desta terça-feira (24).

De acordo com o secretário, foi feito contato com o Confederação Nacional dos Agentes Comunitários de Saúde (Conasc) e devem ocorrer uma reunião com as secretarias estaduais. “Cumprindo prazo nesta quinta-feira (26) deve começar a disponibilizar medicamento, o que dará conforto aos profissionais. O uso está liberado e será disponibilizado esta semana”, assegura.

Vianna reforça que as pessoas não devem usar esse medicamento fora do ambiente hospitalar, preconizado para a relação de casos médicos. “Temos o cuidado e zelo de criar protocolo com dose, tempo de uso, monitoramento e mais uma vez, não use hidróxido cloroquina sem orientação. Deve ter acompanhamento médico”, reforça.

O ministro reforça que este é um medicamento muito promissor, pois o Brasil detém uma experiência muito grande. “São de mais de décadas no uso desse medicamento, para tratar pacientes com malária na região Norte, mais de 200 mil pacientes por ano. É um medicamento que tem várias ações no ciclo de replicação do vírus e consegue alterar a evolução do ciclo do vírus em condições em vitro. Os estudos clínicos em humanos ainda estão em curso e alguns foram publicados recentemente. Será Proposto um protocolo de curto prazo, são cinco dias de tratamento, para que possamos tratar os pacientes hospitalizados com essa condição”, destaca o ministro.

Mas Mandetta alerta que apenas os pacientes que forem para o hospital e que tiverem as formas graves da doença utilizarão o tratamento. “Sabemos já que a mortalidade desse grupo é muito alta, então temos que oferecer uma alternativa. O que fizemos, buscamos a literatura científica e identificamos que ainda há lacunas do conhecimento, mas para esse grupo de pacientes que tem uma mortalidade muito alta que nos pacientes críticos, que vão para UTI, no choque e necessitando de assistência ventilatória pode chegar a 49%, quer dizer, de cada dois um paciente vem a falecer, temos que dar uma alternativa terapêutica e optamos em oferecer dentro dos hospitais”, enfatiza

Vale ressaltar que a população deve ficar atenta. “Quero fazer aqui um pedido a população, não usem esse medicamento fora do ambiente hospitalar, porque não é seguro. Esse medicamento tem que ser feito em condições de segurança acompanhamento médico, porque durante o uso desse medicamento podemos ter algumas alterações no ritmo do coração. E isso tem que ocorrer dentro do ambiente hospitalar”, pondera o ministro.

Quarentena/crise

O ministro explica que estamos no início da subida. Ela leva algumas semanas, e conta-se com projeções. Será avaliado se as projeções ‘baterão’, a intenção é sempre antecipar os problemas em 30 dias e fazer recomendações consideradas necessárias. E aí, entra a questão da quarentena.

“A quarentena é um mecanismo que utilizamos quando há uma doença infecciosa como é o caso dessa cuja a transmissão seja fácil. Então se estamos iniciando o processo com relação a curva, temos que ter muita calma porque a quarentena é um remédio extremamente amargo e duro e é necessário usar. Você tem desde redução de mobilidade que pode fazer antes do ‘fecha tudo’, existe a possibilidade de trabalhar por bairro, fazer redução de mobilidade urbana em determinados aparelhos, existem uma série de medidas que será tomando até que se chegue em um determinado patamar”, pontua.

Mandetta explica que saímos praticamente do início dos números, para praticamente um efeito cascata de decretação em todo o território nacional. Em paralelo como se estivéssemos todos em franca epidemia. O que causa uma série de transtornos para o próprio sistema de saúde que é a única razão das medidas. “Não vamos mudar um milímetro do nosso foco na vida, vamos focar na vida, durante todo esse tempo. Não vamos perder esse foco e estamos muito conscientes, mas quando vemos que certas medidas colocam em risco também, vocês ouviram falarmos algumas vezes em não conseguimos enviar a vacina porque não temos o avião, não consigo produzir o ventilador porque o funcionário não chega na firma para produzir o ventilador, não consigo fazer determinada coisa por conta disso ou daquilo”, ressalta.

“Elas devem estar muito bem pactuadas, há países que trabalham por cores, olha se um veículo for selo azul, por exemplo, é saúde, se for amarelo é segurança se for branco é jornalismo, e você vai trabalhando para as vias abertas para aquele pessoal poder andar. Vai se trabalhando de uma maneira também coletiva do tipo, vou começar no dia tal e terminar no dia tal, porque trabalhar sem prazo para terminar ela vira uma parede na frente das necessidades das pessoas que precisam comer abastecer, as suas casas, que precisam ir e vir porque isso faz parte da sobrevivência e fizeram parte da linha da fala do presidente, onde ele coloca que se não tivermos cuidado com a atividade econômica, essa onda de dificuldade que a saúde vai trazer, virá uma onda de dificuldade maior ainda, que vai trazer com a crise econômica, não podemos ser insensíveis, entendemos e enxergamos isso com muita clareza, o que queremos é fazer isso de forma organizada”, explica.

Foi proposto aos governadores que tragam um, dois ou três, juntos dentro de uma pequena unidade, uma proposta nacional, para que todos saibam. “Quando o número de casos estiver aqui, vai acontecer isso, quando estiver aqui, faremos isso. Você me comunica, eu checo, me preparo. Quais são as atividades econômicas que a gente considera as essenciais, tenho certeza que analisando os quadros todos juntos, embora nós sejamos o Brasil, o Brasil tem ‘vários Brasis’. Rio Grande do Sul e Santa Catarina por exemplo, são os locais de pessoas mais idosas, onde tem que ser diferente de estados com população mais jovem”, ressalta.

Nesse momento de crise serão trabalhados critério técnico sempre. Mandetta afirma que serão repassadas determinadas estruturas que podem e devem ser feitas por um comitê muito mais alargado do que o da saúde. “Tenho certeza que esse comitê vai achar boas soluções para a economia em tempos de saúde, vai achar boas soluções para logística, para cultura, boas soluções para uma série de atividades que são essenciais para a vida da população. A saúde só pode funcionar quando gera riqueza e precisamos pensar em tudo isso”, acrescenta.

Quarentena vertical ou horizontal? Existem duas maneiras de fazer eventuais quarentenas. Atualmente trabalha-se com a horizontal, mas uma outra opção é a vertical. Na segunda, conforme o ministro, aponta que o risco para as pessoas de 49 anos para baixo é mínimo, neste caso, “se houver um bom comportamento social você pode soltar, isso tudo vai vir aqui, tem muita gente estudando, tem salas de situação, tem epidemiologistas daqui e de fora, então não vamos fazer nada que a gente não tenha confiança que a gente possa sugerir”, afirma.

“Talvez ao término dessa história, poderemos dialogar e ver que não dá mais para não ter saneamento, não dá mais para ter favela, habitação inadequada, e achar que aquilo é uma comunidade cultural, não é! São pessoas, não dá para ter sistema lotado de transporte e achar que é cultural. Teremos que sair disso sem perdedor e sem vencedor. Sem ataque e sem apontar dedo para A, B ou C. Será preciso enfrentar a situação. No momento podemos assegurar que estamos dentro do que pensamos que seriam os primeiros 30 dias. Estamos controlando para ter bom uso desses equipamentos para termos na hora e no momento que possa precisar não adianta as pessoas pedirem máscaras para locais onde não tenha nenhum caso, calma. Agora vamos analisar e fazer distribuição racional. Ciência numa mão, informação na outra mão, e capacidade de fazer abastecimento”, finaliza.

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