quinta-feira, setembro 20, 2018
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Homem-Formiga e a Vespa (2018): comédia e ação nos tamanhos certos

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Pequeno em escala e gigante em diversão, o longa explora o humor e a correria de maneira inteligente e criativa.

Peyton Reed é um diretor de comédias. Sejam elas alegres e espirituosas, como em sua estreia em longas com “Teenagers: As Apimentadas”, sejam mais densas e levemente dramáticas, como em “Separados pelo Casamento”, o diretor sempre consegue extrair o melhor de seus atores para fazer o público rir. Em “Homem-Formiga”, ele assumiu repentinamente um projeto que foi total e reconhecidamente concebido por Edgar Wright (“Em Ritmo de Fuga”), um cara que tem uma assinatura forte e um estilo único. Na época, muitos diziam acreditar que as melhores partes do longa haviam sido obra de Edgar, enquanto outras, as mais burocráticas, eram trabalho de Reed. Agora, em “Homem-Formiga e a Vespa”, sem a sombra de Wright em seu caminho, o diretor mostra que a chance dada a ele lá atrás não foi em vão e que também é um cara de boas ideias e ótima execução.

Quase dois anos depois dos acontecimentos de “Capitão América: Guerra Civil”, Scott Lang (Paul Rudd) está em prisão domiciliar por ter participado da rebelião contra o governo, ao lado de Steve Rogers (Chris Evans). Sem poder entrar com contato com seus antigos aliados, dentre eles Hope Van Dyne (Evangeline Lilly) e Dr. Hank Pym (Michael Douglas), Lang passa seus dias trancado em casa, montando uma empresa de segurança e brincando com a filha. Um evento misterioso muda tudo e faz com que o Homem-Formiga precise ajudar a agora heroína Vespa e seu pai, a salvarem a antiga Vespa, perdida no mundo quântico. Apesar do tom solene da trama, a execução do longa é extremamente leve e divertida, sem ser passageira. Se a expectativa era a de que a obra seguisse a trajetória sombria de “Vingadores: Guerra Infinita”, logo nos primeiros minutos é possível perceber que o tom empregado será totalmente diferente, trazendo um ótimo complemento para o já diversificado lore do Universo Cinematográfico da Marvel.

Com um elenco afiado, as piadas do roteiro escrito por cinco roteiristas – dentre eles Chris McKenna e Erik Sommers, que escreveram os sucessos “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e “Jumanji: Bem-Vindo à Selva”, e o próprio Paul Rudd – se encaixam perfeitamente com a ação, não trazendo aquela sensação incômoda de que as gracinhas estão interrompendo a história. Com exceção de um momento que envolve o personagem Luis (Michael Peña) e sua turma, em que o filme literalmente congela para contar uma anedota engraçadinha.

Diferente do longa anterior, onde Peña roubava o filme para si sempre que aparecia, aqui quem brilha é a dupla Evangeline Lilly e Michael Douglas, filha e pai Pym. Lilly transborda felicidade em sua atuação e mostra-se determinada a ser a maior “chutadora de bundas” do cinema de quadrinhos, enquanto Douglas deixa-se levar por uma onda gigantesca de comédia e entrega as melhores gags da produção. Apesar do estranhamento inicial de se ver um ator tão intenso, soberano dos thrillers dos anos 80 e 90 como “Instinto Selvagem” e “Atração Fatal”, em um papel leve e cheio de ironia, a sensação desaparece tão rápido quanto a língua afiada do doutor antissocial, genial e rabugento interpretado por ele.

Quem acaba não acrescentando tão positivamente para o bom andamento do filme são as novas adições do elenco. Com três personagens unidimensionais e caricatos, Laurence Fishburne (“John Wick: Um Novo Dia Para Matar”), Walton Goggins (“Tomb Raider: A Origem”) e Hannah John-Kamen (“Jogador Nº 1”), respectivamente Dr. Bill Foster, Sonny Burch e a vilã Fantasma, acabam sendo descartáveis no longa, sendo tratados apenas como meios ou obstáculos para atingir um desfecho. Apesar do visual e dos poderes bacanas da Fantasma – um tanto quanto “chupados” dos gêmeos vilões de “Matrix Reloaded” -, ela é só mais uma vilã com aspirações confusas e mal exploradas do enorme hall de péssimos arqui-inimigos de filmes de quadrinhos que possuem planos ruins.

Visualmente o longa é simples e ao mesmo tempo extraordinário. Apesar de não abusar de cenários grandiosos, explosões e destruições continentais, é nos detalhes que sobra brilhantismo. Se já era divertido acompanhar o Homem-Formiga em seu tamanho diminuto, aqui, por conta de um problema hilário pelo qual o personagem passa, a graça das cenas de ação fica para as ágeis e diversificadas mudanças de escala dos personagens e também de suas perspectivas. Em uma cena em particular, Lang muda de tamanho três vezes e é impossível não se empolgar com a desenvoltura e com o fácil entendimento de como isso ocorre. Tudo isso turbinado com dúzias de piadas que deixam tudo mais leve e fluido.

“Homem-Formiga e a Vespa” é uma continuação muito melhor do que o filme original. Talvez por ser um projeto de um homem só, talvez porque este homem só seja Peyton Reed. Apesar de ter a obrigação de “ligar” sua história com o momento dramático pelo qual o Universo Cinematográfico da Marvel está passando – e acredite, isso acontece de maneira extremamente satisfatória e fluida -, o diretor criou aqui um belo filme de heróis para chamar de seu. Divertido e inteligente, como toda a sua filmografia é.

Rogério Montanare – cinemacomrapadura

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