quinta-feira, junho 20, 2019
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Evangelho e Contra Cultura

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Não é à toa que o evangelho é um escândalo de qualquer ângulo que se olhe.

Para os judeus é o escândalo da transgressão de inúmeras leis que se cristalizaram na consciência como sendo uma verdade absoluta, transformando assim a vontade de Deus num sistema legal frio e perverso.

Já para os gregos, a ousadia está na sugestão de que o corpo humano, frágil, imperfeito e questionável, seria capaz de encarnar aquilo que consideravam ser o responsável pela harmonia e perfeição do universo: O Logos.

Com certa dose de sarcasmo por parte daquele que É, antes de tudo se tornar, Deus nem mesmo leva em consideração a frieza da mente legalista dos Judeus nem tampouco a frivolidade da “sabedoria” grega.

O Evangelho de João simplesmente sai com uma tijolada na cabeça de ambos dizendo que no princípio o Verbo que estava com Deus, Era DEUS e que esse Deus se fez carne.

Pronto. Blasfêmia, gritam os de Moisés. Loucura, dizem os de Sócrates. Assim, sem concordar ou considerar gregos ou troianos, quer dizer, judeus (hi hi hi ), O evangelho vira carne e sangue.

Jesus é a Palavra e a Palavra é Jesus. Que privilégio tiveram os primeiros discípulos, literalmente podiam abraçar a Palavra, beijá-la, andar com ela, servi-la… que honra !

É, mas ficar só honrando, honrando e honrando não é bem a proposta do Evangelho. A encarnação do Verbo foi o início de um processo de desafio, atrevimento e extravagância. Pois Deus, não satisfeito com ter encarnado em Jesus, resolveu que iria continuar “encarnando” nos homens.

É essa a beleza e atrevimento desse processo extravagante, o que nos deixa embasbacado com o amor de Deus. Podendo edificar para si mesmo palácios de dimensões pra lá de nababescas, esculpido com mármores, metais como ouro, cravejado de brilhantes… preferiu encarnar.

Sinceramente, se não fosse quem é eu diria: Tá louco ? Mas não me atreveria quando se trata do Allmight !

Não há outro lugar onde Deus escolheu instalar o seu Reino senão no coração do homem. É assim, de dentro para fora, que o Pai entendeu ser a melhor forma de re-configurar o software danificado pelo pecado.

Mas se engana quem pensa que a coisa é fácil. Além de ter que contar com o consentimento do homem (ou melhor, convencê-lo), o processo é lento, longo, cansativo… Ufa !

Há muito lixo em nós que precisa ser varrido pra fora.

Não vou ceder à tentação das listas intermináveis de maldades que nos habitam, mas uma coisa é certa, todos nós, temos muita coisa a mudar.

É por isso que o evangelho é um mergulho de dentro, para mais dentro ainda, na intenção de que cada vez mais fundo A Palavra se inscreva em nós, desalojando nossas irresoluções, enganos, máscaras, projeções e mentiras.

Dessa forma, o evangelho não deixa nada escondido. Tudo em nós fica exposto e toda a nossa feiura é colocada diante de nós.

O Espírito do evangelho consiste em nos desnudar a nós mesmos. Não para os outros e nem tampouco desnudar “aos outros”.

Diante do espírito do evangelho de Jesus só temos dois caminhos: Negar nossas doenças e viver sob o escafandro de ser um impostor, o que nesse caso trata-se de um suicídio parcial que nos permitiria permanecer na existência, sem porém, experimentar nem saber o que seja A Vida… Ou, aceitar nossa condição de PECADORES, (é isso mesmo, sem palavra bonitinha pra enfeitar) e nos rendemos ao amor do Pai que nos perdoa e transforma, a cada dia, quando andamos na verdade e sinceridade.

Queira Deus que a segunda opção seja a nossa escolha. Quando isso acontecer, veremos uma nova geração de gente mais tolerante, paciente e solidária. Interessada em estender as mãos, preocupada em acolher o necessitado, compreendendo as diferenças e limitações, não impondo, valorizando a vida em detrimento das coisas, não santificando coisas, rejeitando todo tipo de violência e covardia, amando com a intensidade que levou Jesus à cruz, só assim entenderemos o real significado da encarnação, tanto nEle, quanto em nós.

Quando é que isso acontecerá ? Pode estar acontecendo agora, com você, pode ter acontecido há algum tempo, pode vir a acontecer daqui a 10 anos ou 10 minutos… não sei, pois não fui chamado pra julgar as arvores e sim a observar e discernir os frutos.

Conhece-te a ti mesmo…

Cuida de ti mesmo…

Ama… como a ti mesmo… “

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Daniel De Luca

Daniel De Luca é farmacêutico por vocação. Nas horas vagas fala sobre teologia no canal “Quinze de Teologia” (YouTube). Apaixonado por Star Wars, autor do livro “De Hoje em Diante” (disponível no site da Amazon), define a si mesmo como “simplesmente cristão”.

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