A Balada de Buster Scruggs – 2/6

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Continuando os ensaios sobre A Balada de Buster Scruggs, revisaremos a segunda história da obra: Near Aldonones.

Se na primeira história fomos enganados por nossas próprias precipitações (confira aqui), agora seremos desafiados a olhar a vida e as escolhas de um criminoso muito azarado (sortudo, às vezes).

O ladrão em questão é James Franco, e logo na sua primeira cena, ele observa um pequeno banco, empoeirado, escondido no ar seco do velho oeste, e tenta a sorte ao assaltá-lo.

O que ele não sabia, mas que nós já suspeitávamos, é que o o funcionário do banco estaria preparado para um assalto – logo, temos uma uma troca de tiros. A onda de azar do criminoso apenas se inicia: ele é capturado e levado à forca.

É interessante imaginar o que se passa na cabeça de alguém que sabe que irá morrer. A serenidade do olhar daquele condenado apenas mostra o quanto ele sabe que, apenas ele, é o culpado de tudo aquilo. É uma pena que esse “filme antes de morrer” só passa no último momento de sua vida, poderia ser encorajador e motivador para ele, poder continuar de uma forma diferente.

1 João 1:19 o ajudaria nesse momento.

Mas como eu tinha dito, às vezes ele é sortudo. As autoridades que iriam enforcá-lo são atacadas por uma tribo indígena, e ninguém sai vivo. Apenas o que deveria morrer. Depois da confusão, o criminoso é salvo de sua forca por um homem qualquer, simpático até, e caminha com ele, e “seu gado”, até ficar longe do acontecido.

Quem diria que um criminoso azarado seria salvo pela própria sorte? O fato dos indígenas não o terem matado também, foi sorte. Quem sobreviveria em cima de um cavalo, com uma corda no pescoço, no meio de um deserto seco? Mas a essa altura, depois de assistir a jornada ingrata de Buster Scruggs, alguma coisa tinha que acontecer. E acontece.

O homem que o salvou também é um ladrão. O gado não pertencia à ele. E quando o “salvador” percebe que outros oficiais estão vindo lhe prender, ele foge e deixa o gado com o seu amigo quase enforcado. O azar parece ter voltado: mais uma vez, forca.

Agora com outros criminosos do seu lado, uma platéia animada para ver o show, um bom reforço de guardas, somente sendo muito, mas muito sortudo para sair dessa.

Quando um dos condenados cai aos prantos por saber que não sairá vivo dali, o nosso criminoso pergunta: “Primeira vez?”. É o tipo de indagação de alguém que espera que algo vai acontecer.

Enquanto todos estão sendo encapuzados, o ladrão encontra, entre várias pessoas, uma bela donzela, destacada por seu lindo vestido verde, dentre tantos ternos pretos. “Que moça bonita”, diz o ladrão. Seria ela, a moça que o faria sair da vida que o ceifava? – que o faria pensar que a vida é mais do que desafiar o próprio pescoço?

Nunca saberemos. Ele também não… sua linda donzela foi apagada pela escuridão do seu capuz: a sorte não estava mais com ele.

E essa é a história de um homem que escolheu depender da sorte do que viver as coisas boas da vida; coisas essas que o própria livro de Eclesiastes já ressoava: quem não aproveita as coisas boas da vida, até uma criança que nasce morta e não recebe um enterro digno tem mais sorte que ele (Eclesiastes 6:3).

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Matheus Simplicio

Matheus Simplício é líder do ministério F5 Laguna e um apaixonado por livros, histórias e cinema. Escreve sobre cultura pop e assuntos do cotidiano através da visão cristã. Faz parte da membresia da igreja A verdade que liberta, a qual serve e ama.

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