A Balada de Buster Scruggs – 1/6

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Não tenho medo de dizer: A Balada de Buster Scruggs é um dos melhores filmes de faroeste que existem. Talvez por ser uma antologia (seis contos), ele se faz mais complexo e profundo do que o simples bang bang que estamos acostumados.

Pensando nessa complexidade, iniciarei uma série sobre o filme, expondo as filosofias e conflitos existenciais de cada história.

Buster Scruggs:

A primeira história, que leva o nome do filme, A Balada de Buster Scruggs, narra a vida de um pistoleiro solitário e boa pinta: canta enquanto cavalga, está sempre sorrindo para tudo e para todos, e sua roupa, além de parecer sempre limpa, é branca como a neve. Não tem jeito, somos induzidos a amá-lo.

Cool Water:

Quando o assisti pela primeira vez, fiquei surpreso com a cena inicial: Scruggs cavalga com seu cavalo, Dan, tocando Cool Water, de Hank Williams (depois regravado por Johnny Cash). E a música revela apenas um desejo do cowboy: que ele e seu cavalo possam beber uma água boa e limpa. E, então, vem a surpresa.

A Ambiguidade no Saloon:

Como eu disse antes, somos induzidos a gostar de Scruggs, tanto por uma razão natural, nos parecer simpático, como por uma razão estética, está sempre bem vestido e com roupas brancas simbolizando a paz, coisa que um vilão de faroeste não faria.

Ao chegar em uma pequena cidade, Buster logo decide entrar no saloon local.

“Gostaria de um uísque para lavar a poeira da minha garganta e manter minha voz em bom estado”, diz o simpático pistoleiro… antes de atirar em todos que o provocaram acariciando suas armas.

Seguimos. Desconfiando, mas seguimos. Com seu cavalo, o cowboy vai até outro saloon.

Lá, ele pega o lugar de um homem que acabara de desistir de uma partida de poker, e, ao pegar a “mão” (como são chamadas as cartas) do desistente, o cowboy percebe que se trata de uma “mão do homem morto”, uma sequência de cartas que não só dá azar, como é quase impossível ganhar.

“Se olhou, tem que jogar”, diz um dos jogadores ao perceber a fuga do viajante.

“Ninguém pode obrigar um homem a se divertir”, rebate Buster ao ser ameaçado, mais uma vez, por uma carícia na arma. Então, mais uma surpresa: ele mata o jogador mal-humorado, e sem arma(coisas que só vendo para entender).

Tudo que vimos de Buster até aqui só alimenta a sua ambiguidade. Ele não quer apenas uma água boa e limpa, mas também a oportunidade de mostrar as suas habilidades com a pistola (às vezes, até sem), não importando quem se machuca. Ele não quer apenas mostrar a sua simpatia, mas o quanto pode ser frio e maldoso, como quando puxou uma música após ter matado um homem. Buster Scruggs é a maior armadilha de quem julga pela aparência.

A Última Balada

Agora já sabemos quem o nosso personagem realmente é, e que, dificilmente, existiria um gatilho mais rápido que ele. Mas sempre tem um desafiante, e aqui não foi diferente: um cowboy, tocando uma gaita, vestido todo de preto (como os vilões de faroeste costumam se vestir), também quer ser o gatilho mais rápido. “Preciso abrir uma funerária”, diz Scruggs.

Mas esse duelo seria diferente: nosso protagonista não sairia vivo. Mas seu algoz não é necessariamente mau, assim como Buster não é necessariamente bom. O contraste de suas roupas tentam mostrar a diferença existente entre eles, mas essas não conseguem defini-los.

Conclusão

E assim é a balada da vida, tentamos reconhecer as pessoas pelo o que elas aparentam, mas nem todos que usam preto são maus. Tentamos reconhecer as pessoas pelo cumprimento, mas nem todos os simpáticos querem o nosso bem. Tentamos reconhecer as pessoas pelo discurso, mas nem tudo que se fala é vivido.

Logo, A Balada de Buster Scruggs não é sobre um cowboy que gosta de cantar e jogar poker, mas é uma representação artística da realidade: a vida é breve e incerta.

Enquanto o simpático e frio cowboy sai por aí cantando, calvando e mostrando ser o gatilho mais rápido, nós também o acompanhamos, mas com nossas próprias escolhas; escolhas que tem consequências reais.

A morte espera o momento certo para encontrar Buster, junto a figura de um cowboy de preto: é hora de “trocar as esporas por asas”, como diz a música do filme.

A lição final da história é a mesma de Eclesiastes 9:11: não importa o quanto somos rápidos, fortes, sábios, prudentes ou ricos, o tempo e o acaso afetam a todos.

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Matheus Simplicio

Matheus Simplício é líder do ministério F5 Laguna e um apaixonado por livros, histórias e cinema. Escreve sobre cultura pop e assuntos do cotidiano através da visão cristã. Faz parte da membresia da igreja A verdade que liberta, a qual serve e ama.

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